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14/03/2014

Queda e ascensão de Gustavo Castilho

Natural de Brejo Alegre, interior de São Paulo, começou a usar drogas aos 12 anos, e hoje auxilia na reabilitação de 18 dependentes químicos

Estudante de Pedagogia chegou a morar três anos embaixo da ponte (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

CAPIVARI – O estudante de Pedagogia Gustavo Galera Castilho, 37, vive em Capivari desde o primeiro semestre de 2013, quando decidiu que, dessa vez, ele é quem escolheria aonde iria se tratar. Com 12 anos de idade, foi uma das incontáveis vítimas daquela velha história da turma de escola, a qual resolve experimentar a droga.

Vítima sim, pois depois que a sensação de prazer passa, alguns conseguem sair sem danos. O que não acontece com outros. Estes estão presos nas garras de um vício terrível. Isso porque a dependência química é uma doença crônica, incurável e progressiva, que se não tratada pode ser fatal.

Em 2012, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o uso de drogas por adolescentes que vivem nas capitais chegou a 9,9%, o equivalente a mais de 312 mil jovens. Em 2009, quando a pesquisa foi feita pela primeira vez, o percentual era de 8,7%.

Antes da quinta e última internação, Castilho foi levado a uma clínica psiquiátrica em Taboão da Serra, interior de São Paulo. No começo, nem ele, nem a família entendiam o que se passava, e por isso, logo na primeira indicação recebida por dona Ângela, 60, a escolha foi unânime. “Falaram pra minha mãe ‘olha, em Taboão da Serra tem um lugar…’. Mas era psiquiatria. Daí fiquei dois meses, porque nesse tipo de clínica a gente só fica para desintoxicação e à base de medicamentos. Isso aconteceu em 2002. Eu tinha 25 anos”, lembra.

Sem entender a doença da dependência, família o internou três vezes numa clínica psiquiátrica (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

O paulista de Brejo Alegre conta que a princípio usava para buscar aceitação, porque tinha problemas de relacionamento com a família e, ao mesmo tempo, “já queria ser adulto”. Mas ele percebeu que a droga não era brincadeira de criança quando se viu desviando dinheiro do contrato entre a prefeitura e a Caixa Econômica Federal para comprar mais cocaína. “Na época eu era diretor financeiro da Prefeitura de Brejo Alegre. Para não ser preso aceitei a internação”.

O pai, Pedro de Paula, 60, exerceu o cargo de prefeito da cidade durante quatro anos e depois por mais oito. Deixou a política em 2012, ao eleger seu candidato. “Algumas pessoas me falavam ‘você está queimando a imagem do seu pai. Pare com isso’”. Na época, seu Pedro não era o atual prefeito, porém, já havia sido uma vez. “Ele colocou o candidato que apoiou, e o mesmo me chamou para trabalhar. Era cargo de confiança”, menciona. “Foi uma bomba na cidade”, quando tudo começou.

Assim que saiu da clínica, Castilho perdeu o emprego. Foi quando conseguiu trabalho como motorista da usina Revati. “A cidade é bem pequena. É tipo Rafard, mas tem apenas três mil habitantes e uma usina muito grande”, comenta. Contudo, ele não ficou “limpo” por muito tempo. Com intervalos de um ano, as recaídas fizeram com que retornasse para o mesmo lugar mais duas vezes.

O consumo de cocaína no Brasil mais que dobrou em menos de dez anos e já é quatro vezes superior à média mundial (0,4%), conforme dados divulgados na terça-feira, 4, pelo Conselho Internacional de Controle de Narcóticos, entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2005, 0,7% da população entre 12 e 65 anos consumia cocaína no país. No final de 2011, o valor chegou a 1,75%. Segundo a ONU, a média brasileira também supera a da América do Sul (1,3%).

Prestes a passar pelo quarto internamento, Gustavo Castilho conheceu um grupo de Narcóticos Anônimos. A partir daí, a família começou a compreender que o caçula de três irmãos estava doente e precisava de tratamento específico. Juliana, 40, a mais velha, encontrou uma clínica na cidade de Bragança Paulista, e lá o deixaram em setembro de 2012. Porém, a terapia dedicada a um homem que há três anos, entre idas e vindas, se refugiava num barraco embaixo da ponte, não foi suficiente.

Castilho conheceu um grupo de Narcóticos Anônimos pouco antes da quarta internação (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

“Eu furtava coisas dentro de casa pra vender pra usar droga. Chegou num ponto que minha mãe trocou as fechaduras e disse: ‘aqui você não entra mais’. Esses acontecimentos me marcaram bastante”. Segundo ele, a clínica bragantina não era psiquiátrica, e sim voluntária, “mas era meio que um depósito de gente. Só tinha trabalho e desintoxicação. Fiquei quatro meses lá”.

Em pouco tempo, o desejo de usar drogas e ingerir bebidas alcoólicas falou mais alto novamente, no entanto, a quinta tentativa de recuperação seria numa clínica de sua escolha, cujo tratamento veio a ser em Capivari, a 500 quilômetros da cidade natal. “Eu vi uma propaganda num livro da Editora EME e guardei. Aí, quando aconteceu tudo de novo, e a compulsão e a obsessão voltaram eu vim para cá”.

Após mais de 20 anos refém da cocaína, Castilho recebeu alta na comunidade Nova Consciência, que fica no bairro Cancian, em outubro do ano passado, seis meses depois de dar entrada. Logo em seguida, convidaram o ex-adicto a fazer parte da equipe de monitores, na qual atualmente auxilia na reabilitação dos 18 internos. É a chance, ressalta, de dar aos recém-chegados o mesmo apoio e o mesmo carinho que um dia recebeu.

“Nossa. É gratificante. Hoje, eu sou feliz especialmente, porque gosto muito do que faço. É bom estar com o pessoal. Quando alguém chega aqui, está no mesmo estado de quando eu cheguei”, acrescenta. Ele, que se dizia “cansado dessa vida de usar drogas”, não sabe ao certo se a vontade continua. “Mas sei que não posso usar. Se eu usar a primeira vez, vou desencadear todo o processo novamente”.

A clínica, de acordo com o fundador Arnaldo Rodrigues de Camargo, especialista em dependência química pela Universidade de São Paulo (USP), trabalha com a ressocialização desde o primeiro dia de internação. As atividades ajudam na desintoxicação, que perduram, no mínimo, 90 dias. “Os internos convivem com as pessoas da sociedade desde sempre. Eles terão as ‘fissuras’, as tendências, uma série de coisas que a gente já vai percebendo e corrigindo”, explica.

Segundo Camargo, três vezes por semana os pacientes vão à academia sob a orientação de um psicólogo e com o acompanhamento de um professor de educação física. Dois dias por semana, são levados para uma área de lazer, onde há campo de futebol, piscina e lago para pesca. “À noite, eles também saem: de segunda-feira, eles têm palestra na editora. Na terça, vão ao grupo de Narcóticos Anônimos, em Rafard. E na quarta-feira vão ao Alcoólicos Anônimos, no bairro Santo Antonio”, continua o especialista.

Ter vontade de parar é, para Castilho, o principal ingrediente da receita que destrói o vínculo com as drogas. “Pode a mãe querer, o pai, a avó; se a pessoa não quiser, acabou”. Além disso, a família também precisa de cuidados para aprender a lidar com a situação, uma vez que se tornam codependentes. “Sabe, eu deixei minha família doente, também”. O jovem recomenda, ainda, evitar se colocar em risco. “Se eu quero um refrigerante, eu não vou comprar num bar”, exemplifica.

A Comunidade Psicossomática Nova Consciência fica no bairro Cancian (Foto: Divulgação/Nova Consciência)

Sobretudo, Camargo adverte que a internação deve ser o último recurso, quando o ente querido já está compulsivo, pois, de acordo com o idealizador da comunidade psicossomática, passar pelo confinamento é um procedimento desgastante. Desse modo, às famílias que percebem os primeiros sinais da dependência, aconselha-se buscar o auxílio de um psicólogo ou psiquiatra, especialistas em dependência química.

Outra opção é procurar saber se existe o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) na cidade, bem como inserir o dependente químico nos fatores de proteção. “Ele frequenta alguma religião? Porque existem os fatores de proteção, que são a escola, a família, o esporte e a religião. Convivendo nesses grupos ele se sente mais protegido. Agora, caso tudo isso seja feito e nada dê certo, aí sim podemos falar numa internação”.

Todas as quintas-feiras, após o meio-dia, Gustavo Castilho vai até a clínica e fica até o meio-dia de segunda-feira, em esquema de plantão. Nas folgas, o monitor relata que divide uma singela casa com mais dois colegas, também ex-dependentes, dentro da editora, popularmente chamada de “casinha”. Este ano, passou no vestibular de Pedagogia na Faculdade Cenecista de Capivari (Facecap), e cursa o primeiro semestre. “Eu sempre gostei de crianças e de trabalhar com elas. Minha intenção é trabalhar com crianças nessa área de prevenção ou de crianças excepcionais”, revela.

Questionado sobre a sensação provocada pelo uso contínuo da cocaína, resume: “Eu já nem tinha mais consciência de que estava usando. Muitas vezes usei sem querer usar. É uma obsessão, sabe?”, constata. A dependência, segundo ele, é basicamente sinônimo de perda. “Só leva a isso. Eu quase destruí a mim próprio e a minha família. Quando você menos espera, todo mundo se afasta, você fica sozinho, perde o emprego, fica sem nada”.

E nem o namoro escapou. A namorada não aguentou a barra, conta. “As pessoas vão te ajudando uma vez, duas vezes, até que não tem mais o que fazer. Eu prejudiquei todos os que estavam perto de mim. Minha mãe, minha namorada, minha irmã. Porque os amigos são os primeiros que se afastam. Aí fica a família. E chega uma hora que a família também fala ‘meu, não dá mais’”.

Para o fundador da Nova Consciência, Arnaldo Rodrigues de Camargo, mesmo “curada” a pessoa não deve parar de repensar o assunto, de participar de grupos e manter a sobriedade. Hoje, Castilho dá continuidade à terapia fora da instituição, frequentando grupos em diferentes cidades. “Esse processo de recuperação é bem legal. Hoje eu sou motivado a ficar em recuperação. Eu me sinto livre. É igual o pessoal fala no grupo: tudo o que eu fiz ontem, eu vou ter que fazer hoje de novo. ‘Só por hoje’, eu consigo ficar em recuperação”.