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05/05/2017

O homem do saco!

Colaborador: Junior Quibao, rafardense

Colaborador: Junior Quibao, rafardense

ARTIGO | Que criança não foi amedrontada pela mãe com essa figura? Pelo menos no meu tempo era!

Mas por experiência própria lá pelos meus seis ou sete anos descobri que a melhor maneira de trabalhar os nossos medos é enfrentá-los de frente, e descobri isso na pontinha que ligava o lado da estrada que entra em Itapeva e a bica, onde se pegava água e as mulheres lavavam a roupa em um tanque coletivo.

Eu morria de medo de atravessar aquela pontinha, que balançava sobre o córrego, e era estreita e sem guardas.

A minha vitória contra o medo veio na tarde em que a encarei de frente, indo e voltando nela, até perder o medo, descobrindo que ele estava em minha cabeça, pois essa pontinha estava lá desde antes de eu nascer e nunca havia caído e me mantendo em equilíbrio também não cairia nunca!

Meu próximo passo foi vencer o medo que tinha de um canto da sala da frente da casa que meu nono Quibao morava na Leopoldina, casa essa que quando soube que foi demolida, faz pouco tempo, foi um baque, como se parte de minha história tivesse sido apagada, mesma sensação que tive ao levar um casal de amigos conhecerem o prédio da venda de Itapeva, mas chegando lá ele não existia mais. Bem, voltando ao medo, naquele canto o suporte das tabuas do assoalho deveriam ter soltado um pouco da parede e parecia que o chão ia afundar, fiz o mesmo, indo e voltando pra lá até perder o medo.

Mas voltando ao homem do saco, quando era criança já ajudava meu nono Leandrim no armazém, onde hoje é nossa eletrônica, e pelo menos uma vez por mês passava um andarilho que daria pra ser esse personagem, barbudo, cabelo comprido e pele surrada pelo tempo!

Sem contar com o saco, onde ele levava seus poucos pertences. Ele chegava, cumprimentava meu nono e pedia um doce, ou um pedaço de fumo. Meu nono, mesmo com o pedido de apenas um desses itens, sempre dava os dois. Ele agradecia e saia, continuando sua viagem sem fim.

Foram anos assim, o armazém ficou para meu pai, e o homem do saco também! Meu nono falava que o homem dos nove dedos nunca pediu bebida ou outro item, mas as vezes ganhava um pacote de bolachas, que na época eram vendidas a granel, e as quebradas ele doava. Ele chamava o andarilho de homem de nove dedos, pois sempre andava descalço, e em um dos pés ele tinha só quatro dedos. Como citei antes foram anos de suas visitas sempre em silencio, dava um bom dia, pedia algo que queria, agradecia e ia embora. Eu sempre tentando entender como alguém poderia partir para uma vida assim. Mas um dia um senhor que ia comprar comida para os pássaros que criava o reconheceu assim que entrou na venda, o chamou pelo nome, coisa que ele não deve ter gostado, pois virou as costas e nem fez o pedido habitual, aliás se não me engano, foi a última vez que ele passou por lá. O Tico me disse que o conheceu na juventude, morava aqui na fazenda Itapeva, era um cortador de cana muito bom, mas não soube me dizer que fez a vida dele tomar esse rumo. Esse andarilho me marcou mais, pois meu nono dizia que nunca ele pediu bebida, coisa que a maioria dos outros fazia, quando não pedia, já vinha com os trocados para a compra dela. Quantas crianças foram amedrontadas pelas mães, apontado para aquele senhor? Mal sabem elas que atrás daqueles cabelos compridos e daquela barba se escondia um ser amedrontado por lembranças de um passado distante! Homem dos nove dedos, onde estiver que você tenha encontrado a Paz!