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De férias, a minha esferográfica por imposição do reumatismo reumatóide, artrose e artrite que me aplicam uma pena insistindo que eu deixe de ver a beleza da vida, o que não conseguem. Mesmo com o pulso doendo, teimoso, peguei uma folha de papel e caneta para escrever alguma coisa, mas a decantada inspiração, também de férias e sem vontade de colaborar com o meu passatempo, a minha melhor distração: escrever e ler.
E vou por aí... pelo caminho das letras à procura de um assunto: O ideal sobre a minha cidade adotiva (Rafard). Já escrevi muito sobre isso...
Embora assuntos não faltem, nenhum especial sobre o dia-a-dia vem premiar a esferográfica que em vão vai enchendo de caracteres a folha escolhida. Ela não parece feliz com meu insucesso.
De quem a culpa? Da artrose? Nunca esta caneta fracassou.
Isso afirmando veio-me à lembrança o caso do jornalista que estava sem ideia para sua costumeira matéria no jornal de sua cidade quando saiu a passeio pela circunvizinhança em busca de assunto. Nenhum lhe ocorria, o mar, também para ele, não estava para peixes. Então, aproximou-se de um homem idoso, de aparência saudável varrendo a frente de sua casa e parou para um bate-papo:
- Bom dia, senhor! Dia bonito, não?
- Bom dia, bonito sim - respondeu o senhor descansando a vassoura.
- Posso fazer-lhe uma pergunta?
O senhor, sorridente:
- Quantas quiser.
- Quantos anos o senhor tem? Vejo-o disposto, trabalhando a vassoura com destreza.
- Oitenta e quatro.
- Oitenta e quatro!!! Não parece. O senhor está "vendendo" saúde. O que o senhor fez durante todos esses anos para conservar-se assim tão jovem? - brincou o moço.
- Nunca bebi, nunca fumei, sempre dormi cedo (nove horas), sempre me alimentei bem, mas com moderação como aconselham os nutricionistas.
No umbral da porta apareceu outro senhor de idade avançada. O moço perguntou:
- Quem é?
- É meu irmão.
- Gostaria de bater um papinho também com ele.
- Bom dia, senhor!
- Bom dia - respondeu, fazendo reverência.
- Acabo de falar aqui com o seu mano e me alegro, agora, com o senhor. Também parece muito disposto.
Continuou a conversa fazendo as mesmas perguntas que fez ao irmão.
- Tenho oitenta e nove anos. Nunca deixei de tomar os meus bons tragos. Fumo desde os doze anos. Não tenho hora pra dormir; uma ou duas horas da madrugada quando o pôquer não me segura até o sol raiar. Sou comilão, gosto de tudo.
Ia dizer mais alguma coisa quando um barulho de pratos quebrados, de panelas batendo no chão e de falas altas de quem estava brigando com o mundo vinha do interior da casa.
- É nosso irmão.
- Quantos anos?
- Noventa e cinco. Está sempre bêbado. Bebe o dia inteiro, todo dia homenageia Baco, o deus do vinho.
- Ele, noventa e cinco!!! Mais anos para os senhores.
O rapaz admirado despediu-se com apertos de mão.
Dizia o caso que o jornal de sua cidade não ficou sem sua matéria costumeira e o da minha, "O Semanário Regional" de Rafard, também não.
Obs.: Bebida alcoólica só socialmente.
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| Silveira Rocha |
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Arquivo:
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Ano: XVIII Edição: 960 De 23 de Julho a 29 de Julho de 2010
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